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Livros Etc

por Josélia Aguiar

Perfil Josélia Aguiar é jornalista especializada na cobertura de livros

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Suspense

Por Joselia Aguiar
21/08/12 21:58

O leitor deve ter notado que o blog andava pouco ativo.

Só depois do último dia 10 pude enfim falar qual é meu projeto secreto: preparo para o selo Três Estrelas, do grupo Folha, a biografia de Jorge Amado.

Um trechinho do livro saiu na edição que a Ilustrada fez sobre o centenário de nascimento do autor,  vá por aqui para ler.

Tive de parar várias coisas nos últimos meses. Agora vou ter de parar o blog também.

O leitor pode imaginar o quanto essa experiência, além de inédita para mim–até hoje eu só fui leitora e jornalista–, é arrebatadora (não há mesmo outra palavra).

O meu biografado, não bastasse a escrita de mais de 30 livros de grande popularidade, teve uma vida movimentada para dedéu, viajou o mundo inteiro, conheceu gente em todo o lugar e fez parte de episódios muito importantes da história (não só fez parte, muitas das vezes protagonizou os episódios).

Não vou desaparecer totalmente. Para acompanhar minhas sugestões de leitura –livros que leio, links que recomendo, assuntos que considero importantes –, o leitor pode me seguir no twitter @_jag ou no Facebook https://www.facebook.com/joselia.aguiar.3.

Nos vemos lá.

 

 

 

 

 

 

 

Blimunda, Saramago e Amado

Por Joselia Aguiar
18/08/12 09:56

Blimunda é a revista da Fundação José Saramago, nova, bimestral, já no terceiro número.

Vi agora que está no ar a edição mais recente, com dossiê dedicado a Jorge Amado — download grátis, por aqui

O post serve também para registrar – começa no dia 7 de setembro o Ano de Portugal no Brasil.  A programação, quando começar a ser anunciada, você pode acompanhar pelo site oficial, por aqui

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Blimunda, para quem não sabe, é personagem de “O Conto da Ilha Desconhecida”, uma linda novelinha, fabular, fabulosa, entre as minhas preferidas.

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Atualização dia 20/08 – Dois leitores me lembram que Blimunda faz par com Baltasar em “Memorial do Convento” . Minha edição de “O conto” foi emprestada a alguém e se perdeu.  Alguém pode checar se também não é Blimunda a moça que pega o barco com o moço em busca da Ilha Desconhecida?

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Atualização dia 21/08 – Depois da resposta da Ana, da Fundação José Saramago, nos comentários abaixo,  o blog encerra o post com a indicação de duas leituras, ambas imprescindíveis.

Para quem quer conhecer Blimunda, o livro é este aqui.

 

Para quem quer saber quem eu me lembrava como sendo Blimunda, o livro é este aqui:

 

Lucio Cardoso, centenário hoje: livros e vinho branco

Por Joselia Aguiar
14/08/12 11:35

 

Lucio Cardoso completaria cem anos hoje — neste 2012, tão centenário quanto Jorge Amado e Nelson Rodrigues.

Mineiro radicado no Rio, era amigo e confidente de Clarice –como estou fora de São Paulo, vou ficar devendo, prometo depois publicar aqui algum encontro entre os dois em páginas de jornal ou revista que eu tenha no meu arquivão.  No último post, a conversa era entre Clarice e Jorge.

O autor, mais conhecido por seu  romance “Crônica de uma Casa Assassinada”,  tem outras grandes facetas a ser exploradas, como a de poeta e pintor. Ano passado, na ex-coluna/blog contei das publicações que iriam sair relacionadas a ele, vá por aqui.  Ésio Macedo Ribeiro organizou sua poesia completa, já publicada pela Edusp — por aqui –, e seus diários, que têm nova edição do grupo Record até o fim do ano.

Coisas novas que também saem até dezembro: seus contos inéditos, escritos entre 1930 e 1950, vão chegar em dois volumes, reunidos por Valéria Lamego -vá por aqui. As pinturas e desenhos, organizados por Andréa Vilela, também vão virar livro. Beatriz Damasceno lançará sua tese sobre os últimos anos de vida.

Esta noite, no bar Lagoa, no Rio, moradia na década de 1950 (há um edifício em cima do bar, não é só metáfora), seus leitores e pesquisadores se encontram para um brinde –de preferência, com vinho branco, bebida do autor.

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A Casa de Rui Barbosa promove seminário + exibição de filme no próximo dia 27, a partir das 15h, com entrada livre, convite abaixo.

 

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Nos comentários, Denise Bottmann nos lembra que Lucio era bom tradutor; faltou registrar. Alguém estudou o Lucio tradutor? Se sim, conta aqui.

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Atualização no dia 15/08- Vá por aqui para ver livros traduzidos por Lucio Cardoso, no blog de Denise Bottmann.

Jorge responde a Clarice o que deve fazer um escritor realizado

Por Joselia Aguiar
07/08/12 22:13

 

Clarice também entrevistou Jorge Amado  –centenário lembrado nesta sexta, dia 10 —  quando era repórter entre 1960 e 1970 –vá por aqui para ver seu encontro com Nelson Rodrigues, por aqui, com Mario Cravo, por aqui, com Erico Verissimo.

A conversa, em dois pequenos trechos.

“Você é um homem realizado, Jorge? “Penso que o escritor que um dia se considere realizado, se não for um idiota (e deve ser) tem o dever de deixar de escrever, pois já se realizou.”

Qual de seus personagens é mais de você mesmo? “Todos os personagens têm um pouco do autor, não é assim, Clarice?”

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O laço entre Clarice e Jorge era “o possível entre alguém voltado absolutamente para dentro e outro, absolutamente para fora”, me respondeu um que foi amigo muito próximo dos dois, o crítico e ensaísta Eduardo Portella*, que edita a histórica revista “Tempo Brasileiro” interruptamente há quase meio século, por aqui.

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A foto acima é de 1944, página de “Diretrizes”, a frase do título é da entrevista em que  conclama os escritores ditos neutros a se posicionar contra a guerra e o fascismo.

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*Não podia deixar de contar nesse post que o espirituoso Eduardo Portella, quando ministro da Educação na transição do governo militar para civil (1979-1980), disse a seguinte frase sobre a transitoriedade do cargo, frase que se tornou famosa por décadas, virou até jargão de programa humorístico: “Eu não sou ministro, eu estou ministro”. Conta-me Portella que por anos a frase o perseguiu, em todo o lugar escutava gente dizer “eu não sou…., eu estou ….”. Aqui me encarrego de trazê-la de volta.

O "Gore certo" e a história americana que não ensinam na escola

Por Joselia Aguiar
01/08/12 13:38

O cara chamava seu país de “Estados Unidos da Amnésia”. Foi por meio século um dos seus mais importantes críticos em romances históricos, ensaios e entrevistas. Numa crise americana tão profunda, como não era procurado para falar?

Fazia tempo que não via nada sobre ele. Ano passado, tentei de todo jeito encontrá-lo. Gore Vidal, morto hoje aos 86, estava já bastante doente. Reproduzo o texto que publiquei na ex-coluna/blog à época.

“Está à venda por US$ 4 milhões a mansão de Gore Vidal, 85, em Hollywood. Em meio à crise, é uma das poucas notícias recentes encontradas sobre o autor que mais se dedicou a ficcionalizar a história do império americano, uma série de sete livros que começou em 1967 ao publicar “Washington DC”. Onde está um dos mais ferinos críticos do país que ele chamava jocosamente de “Estados Unidos da Amnésia”? Recolhido, não quer dar entrevista, respondeu sua agente literária ao ser procurada por esta coluna.”

***

Foi com Gore Vidal um dos dias mais importantes na minha vida como repórter, doze anos atrás, quando era correspondente da Folha em Londres.

Às vésperas das eleições em que concorriam Al Gore, um seu parente, e George W. Bush –eleições que terminariam daquele jeito, com votação infinitas vezes questionada –, ele estava no país da rainha para autografar “The Golden Age”.

Dias antes, por telefone, sua editora me disse que seria “impossível” uma entrevista. Insisti tanto, que ela me sugeriu: “por que você não vai à livraria e não tenta fazer umas perguntas?”  Fiz isso, e não deu certo. Quando chegou a minha vez na fila, a resposta, seca: “não, não vou falar com jornalistas” (foi impressão minha, ou ele fez um meio-sorriso ao escutar “Brasil”?)

Atrás dele, uma assessora de imprensa, que era absolutamente britânica, me veio com uma solução à brasileira. Fez um sinal para mim, fui até ela, que me disse, de lado:” espera por aqui, pois ele vai ter de assinar uns livros [livros que ficam à venda na livraria]. Isso o deixa muito mal humorado, se conversar com você, vai se distrair.”

***

A entrevista saiu na “Ilustrada” em 1 de novembro de 2000: O “Gore certo”, como ele brincou, foi preciso e profético.

 

A história americana 
(que não ensinam na escola)

Com “The Golden Age”, Gore Vidal encerra série de sete romances históricos sobre os Estados Unidos

Autor prevê que império americano será “menor e menos agressivo” no próximo século 
Associated Press
Gore Vidal, em 1960, na sua casa em Tarrytown (NY)

JOSELIA AGUIAR
DE LONDRES 

A senhora inglesa de meia-idade, há mais de meia hora na fila, pede para fotografar Gore Vidal, que sorri apenas, sem dizer exatamente que concorda. Minutos depois, o leitor assíduo traz uma rosa amarela com seus cinco livros de uma só vez para o autor autografar. A mulher com lápis e bloco de desenho está silenciosa no canto da livraria, à espera para fazer seu retrato. De novo, o autor responde aos pedidos com meio sorriso.

Nunca se pode dizer ao certo quando o autor norte-americano de 75 anos, conhecido pela acidez de sua escrita, abandona a ironia. Foi com sua incansável visão mordaz que, desde os anos 60, Gore Vidal se tornou um dos maiores escritores do seu país, ao iniciar uma série de romances históricos sobre a criação do que chama de império americano. Costuma dizer que seus livros revelam o que as patrióticas aulas de história não contam sobre os Estados Unidos: a verdade.

Gore Vidal cresceu em Washington e conviveu com representantes legítimos desse império -de alguns, estava ou ainda está próximo por certo grau de parentesco. Al Gore, vice-presidente dos EUA e candidato democrata nas eleições do próximo dia 4 de novembro, é seu primo distante.

Na última quarta, Gore Vidal autografou seu novo livro, “The Golden Age” (A Era Dourada), em uma das mais tradicionais livrarias de Londres, a Hatchards, em Piccadilly. O livro acaba de ser comprado pela Rocco e deve ser lançado no ano que vem no Brasil. Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista à Folha.


Folha – Com “The Golden Age”, o senhor de fato encerra a sua série de livros sobre a construção do império americano?
Gore Vidal – 
Nesse livro, o sétimo, falo dos anos 40 e dos anos 50. É o período em que Franklin Roosevelt adquire a maior parte do mundo para os EUA.
Depois vem Harry Truman, que joga a bomba no Japão e cria a corporação global. Eu levo a história até o começo do ano 2000. Acho que contei tudo. O que importa é dizer como o império se criou, definir como fomos e quem fomos. Parte da história todos conhecem. Outra parte ninguém contou até então.

Folha – A América continua tão poderosa hoje quanto no passado?
Vidal – 
Sim. A União Soviética desapareceu. Não há mais alternativa ao império americano. Não há sinal de outro poder que rivalize com o norte-americano. Os EUA são o único poder global. Gostaria de substituir esse império atual pela república antiga, mas ela se perdeu nos anos 50.

Folha – Pode-se aprender com a história?
Vidal – 
A América tem razões para não cultivar o passado. Somos culpados e, ao contrário do que diz nossa própria propaganda, detestados.
Os EUA sempre agem de má-fé com outros países. Sejam sempre cautelosos ao lidar conosco. Interferir nos outros países é um hábito que não devemos perder.

Folha – Como será o império americano no próximo século?
Vidal – 
Aos poucos, nós nos tornaremos menores e menos agressivos. Provavelmente vamos nos tornar alguma coisa entre o Brasil e a Argentina, quem sabe um poder médio.

Folha – A cultura americana também domina o mundo como extensão desse império?
Vidal – 
Não estou tão certo de que a cultura americana seja tão dominante. Entretenimento é um grande produto que exportamos, depois de armas. Temos obtido sucesso com isso. Mas o mundo é um lugar muito grande. Um bilhão de chineses têm sua própria cultura. A Índia também tem seu 1 bilhão de habitantes.

Folha – Certa vez o senhor afirmou que a audiência dos livros diminuiu. E ironizou dizendo que havia praticamente mais escritores do que leitores. O senhor realmente pensa assim?
Vidal – 
Os diretores de cinema assumiram o lugar dos romancistas. O cinema se tornou a forma de arte preferida. A ficção se aproximou da poesia nisso. Não há mais um grande público, e sim uma minoria que a aprecia. A ficção não é mais essencial.

Folha – Por que isso aconteceu?
Vidal – 
As gerações crescem vendo TV e não aprendem a ler muito bem. Uma cabeça talhada pelas imagens trabalha diferente de uma cabeça moldada pela datilografia linear. Não saberia dizer a diferença.

Folha – O que o senhor escreve atualmente?
Vidal – 
Eu acabo de lançar uma nova peça na Broadway, há dois meses. Agora uma nova peça deve entrar em cartaz. Tenho de escrever vários ensaios. Nenhum romance agora.

Folha – Às vésperas das eleições nos EUA, como o senhor imagina o governo de seu primo Al Gore?
Vidal – 
Bem, ele pode perder, não é? Infelizmente meu primo Al é o Gore errado. Eu sou o Gore certo. Mas o país não é governando por presidentes, e sim pelas grandes corporações. Quem for presidente será pago por elas, e os presidentes vão fazer o que elas querem.

Livro: The Golden Age
Autor: Gore Vidal
Editora: Doubleday
Quanto: R$ 55 (448 págs.)
Onde encontrar: www.livcultura.com.brwww.amazon.com,www.bn.com (US$ 22 nos sites norte-americanos)

***

Gore Vidal concedeu à Folha, sete anos depois, essa ótima entrevista feita por Sérgio Dávila: vá por aqui.

Entre os obituários que vi hoje, dois links: Uma seleção de frases, vá por aqui, do “Guardian”, e uma lista de ódios de Gore Vidal, no “Huffington post”, por aqui.

Onde está a Livraria Poesia Incompleta? Ora, pois, na Lapa

Por Joselia Aguiar
30/07/12 21:29

 

 

A Livraria Poesia Incompleta, esse formidável empreendimento português unicamente dedicado a poesia — poesia do mundo inteiro, o que é ainda mais formidável — foi tema do ex blog  em janeiro, vá por aqui.

Nem deu tempo de ir conhecer a loja,  chamada um dia de “a última aventura surrealista de Lisboa”, sobre a qual soube com tanto atraso. No fim de março, suas portas foram fechadas,  sem dívidas mas destino incerto, como explicou Changuito, seu criador e faz-tudo, ao jornal  português “Público”, por aqui.

O leitor talvez  não saiba que Portugal, entre outros países da zona do euro, atravessa crise pesada. E o Brasil, talvez o leitor também não saiba, vai muito bem, como nos conta a imprensa estrangeira –ok, estamos ao menos melhorzinhos que antes, ou serei otimista?

A notícia, espero para publicá-la havia quatro meses e não é exagero, é que enquanto os fãs da livraria ficaram a lamentar seu fechamento no blog e mural do Facebook,  Changuito se mudava para o Rio de Janeiro. O endereço é a Lapa, o bairro dos arcos e das novelas de Glória Perez; por ora, um escritório; no médio prazo, uma loja inteira.

Changuito diz que veio com “uma tonelada” de livros.  Tonelada? Vieram em caixas? Como vai ser possível comprar? Já descobriu livros brasileiros? E, afinal, o que fazes no Brasil desde que chegou?

Changuito responde ao blog por e-mail: “Sim, é uma tonelada mesmo, não é metáfora. Caixas, sim, dentro de um avião, passaram por uma kombi, um apartamento e outra kombi. Oitenta por cento do que tinha em Lisboa.  Não tenho datas para a venda na net. Quem quiser comprar, quando eu começar, basta escrever para o mail, ir acompanhando o que eu mostro no blogue e no Facebook. Vou vender muita coisa brasileira. Não tenho vontade de fazer uma livraria portuguesa no Rio, pelo contrário. Cá, como lá, tentarei ter o maior número de idiomas possível. Quando fechei em Lisboa, se não me falha a memória, tinha mais de cinquenta línguas. A minha relação com o Brasil, seja a poesia, seja a música, seja o cinema, é, felizmente, bem antiga. Tenho sempre sorte de conhecer gente talentosa. Os de Portugal hão-de vir, por ar, mar, e todos os meios possíveis. No médio prazo o objectivo é encontrar um espaço físico térreo, para fazer uma livraria, digamos, mais pública. No longo prazo, comprar o Maracanã, acabar de ler Dostoiévski e decorar setenta e três por cento dos nomes dos frutos brasileiros. Não posso contar o que tenho andado a fazer, por estar ao serviço dos serviços secretos albaneses, de Kate Moss e da Nasa.”

 

Poesia Incompleta

http://poesia-incompleta.blogspot.com

https://www.facebook.com/poesia.incompleta

 

Os grandes livros que você não vai ler antes de morrer [atenção: spoiler]

Por Joselia Aguiar
25/07/12 20:26

Grandes livros que desaparecem das livrarias cedo demais, ou estão lá caídos entre as prateleiras, ou fora do lugar certo,  porque a mídia não deu atenção.

Grandes livros de autores que, por anticomerciais ou irascíveis, recusam convites e entrevistas, saem de circulação, recolhem-se.

Grandes livros, aqui: http://livrosquevoceprecisaler.wordpress.com/

O blog existe há quatro anos, com atualizações frequentes –para meu estupor, que só o descobri agora.

 

As rodas literárias de três ou quatro capitais brasileiras discutem há dias se fulano ou beltrano entrou bem ou deveria entrar na seleção da Granta, enquanto um artista inominável como o paraibano radicado em Goiás Walter P.Peixoto conquistava o prestigioso troféu Álvaro Mutis durante a  FAMA – Feira Artística de Manizales, na categoria 2000 (um livro para cada ano da década passada) com seu estupendo “E Eu ali, Todo Quieto”.

O leitor leu a notícia nos jornais?  Ao menos em algum blog especializado? Pior, muito pior: conhece Walter P.Peixoto?

Só o blog Livros que Você Precisa Ler trata em língua portuguesa de autores imprescindíveis como Figueroa Salcedo (“Alguma coisa diferente narrada de uma maneira imperceptível”), Mishka Benjumea, (“Morrer por um dia”)  e Semih Çelozöglu (“Acidente”). E de projetos literários dessa envergadura, “33 caminhos”, de Lev Golem, vá por aqui.  Tente procurar numa livraria física ou virtual. Até no exterior vai ser difícil.

***

Confesso que demorei uns dois, três minutos procurando reconhecer algum nome. Antes de entrar em pânico, a pista, numa das editoras: Maipú.

Maipú, como o leitor se lembra, é o nome da rua de Borges, um dos caras que mais gostariam de fazer uma brincadeira como essa, criar um blog com autores e livros imaginários, imaginários os tradutores e as editoras.

Acho que Berna Brayner, @bernabrayner, o cara que faz o blog sediado em Recife, devia, ele sim, levar algum prêmio, entrar em alguma antologia, ou, ainda melhor, publicar isso em livro.

Brayner me diz que faz paródia com títulos como “500 livros para ler antes de morrer”. Já foi procurado por assessorias de imprensa reais para que conhecesse livro a resenhar.  Os nomes citados são todos fictícios, afora o de um ou outro amigo que identifica como tradutor.  Quem faz as capas, amigos que trabalham com design. Perguntei por que inventa tantos nomes de idiomas do Leste Europeu: isso é preferência de Brayner, de verdade. Ah! Brayner também é de verdade.

Seu blog é ao mesmo tempo uma grande gozação com a ignorância e o intelectualismo:  a mídia e o mercado editorial, os enredos tão imaginativos quanto vazios, a linguagem dos releases, resenhas e sites sobre livros, os mesmos adjetivos estrondosos e interpretações forçadas; mas também o gosto e a atitude idiossincráticos de autores e leitores cada vez mais imersos no mundo dos livros, esse estado de quase (ou total) alienação da vida real que faz com que passem por esquisitos ou simplesmente chatos, a esquisitice muito mais charmosa do que a chatice, é claro (para quem não gosta ou não está muito dentro do mundo dos livros, qualquer coisa desconhecida é chata ou esquisita).

Entre nós: repare nos enredos; melhores do que muita coisa que você lê por aí.

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Tive dúvida em fazer o post, estragar a brincadeira. Só que mais leitores deviam (ou mereciam, fica mais lisonjeiro dizer assim) conhecer  o Livros que Você Precisa Ler, vá por aqui.

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Por onde anda Clarice? No Manual Prático de Bons Modos em Livrarias, vá por aqui, blog de @_hille

Ah, a Academia:  trollagem de alto impacto de escritores e intelectuais no Facebook, vá por aqui.

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Este blog anda um pouco desatualizado esses dias por dificuldades outras, logo, logo voltará à ativa.

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Atualização no dia 27/7Livros famosos que nunca existiram, uma lista de Julio Silveira com obras citadas em outras obras, ou seja, existem apenas na ficção, vá por aqui

Adonis, a moderna poesia árabe

Por Joselia Aguiar
16/07/12 19:18

Espero este livro há uns sete anos.

Em 2005, fizemos na finada EntreLivros uma edição especial só sobre cultura árabe. Foi quando Michel Sleiman, autor de textos incluídos no tal volume, me contou de Adonis (pronuncia-se como oxítona), considerado por muitos o maior poeta árabe da atualidade e até então nunca traduzido por aqui.  Quer dizer, Sleiman já trazia Adonis para o português por conta própria mas uma edição desses poemas não era prevista.

Via Adonis como um dos mais cotados candidatos ao Nobel e isso só aumentava minha curiosidade –não tenho planos de aprender árabe nessa encarnação e confesso que nunca busquei edição em francês. Ano passado, dias antes de sair o prêmio para o sueco Tomas Tranströmer,  procurei Sleiman com a expectativa de que Adonis venceria e tive a notícia de que estava a caminho essa antologia da capa ao lado. Chegou agora às livrarias, pela Companhia das Letras.

As pessoas fazem às vezes muita confusão quando pensam ou falam em mundo árabe. Nem sempre entendem que 1- a cultura árabe é anterior ao islamismo; 2-o islamismo chegou a culturas não-árabes; 3-os que professam a fé islâmica não são necessariamente radicais (embora muitos o sejam); 4- há árabes ateus, cristãos, até evangélicos e judeus (!); 5-na história, houve épocas de intenso e pacífico convívio, como quando Córdoba, na Andaluzia ocupada por árabes, judeus e cristãos, era considerada o ornamento do mundo, ali pelo século X.

A imprensa nem sempre ajuda a desfazer mal-entendidos, muitíssimo pelo contrário. E mesmo quando o jornalista sabe disso tudo –eu, no caso– não tem às vezes como evitar que 1- a capa do tal volume saísse com uma chamada que dizia algo como “A fé une o mundo muçulmano” (o que não é exatamente errado, mas provoca atrito com o chapéu,  o enunciado que vinha logo acima, “Para entender a cultura árabe”) e 2- parte da iconografia incluísse imagens da cultura persa, com quem os árabes tiveram história de invasão e conflitos, sem que isso fosse explicado nas páginas (melhor não entrar em detalhes sobre todo o debate que se deu com a equipe que cuidava da iconografia). Não são problemas de pouca monta, mas, numa discussão editorial séria como essa, acaba-se por ser chamado de preciosista, de novo por causa das tantas generalizações e preconceitos que existem, fazem parte do senso comum.

Adonis, que é sírio, tem também ascendência libanesa, cidadania que adotou a certa altura, quando o tempo fechou no país onde nascera em 1930 (região que vive outro turbilhão agora). Anos depois, radicou-se na França.  Quase sempre é apresentado como “poeta pagão” e “poeta do mundo”; foi um renovador da poesia árabe, modernizou-a com versos livres e sem rimas. Rompeu assim uma tradição milenar, que remonta à época pré-islâmica, quando os versos eram suspensos em tecidos nos grandes mercados –“Os Poemas Suspensos”, antologia traduzida por Alberto Mussa, saiu pela Record em 2006, capa à direita. O leitor deixará o blog feliz se conseguir se recordar de outro poeta árabe traduzido para o português e avisar nos comentários. Traduzir poesia é difícil, temos pouquíssimos tradutores de árabe no país (contei certa vez apenas cinco) e edições de poesia árabe não costumam ser comercialmente atrativas para as editoras.

A poesia é (ou era) tão presente na vida árabe que, como contou Adonis e Amin Maalouf ao se recordarem da infância na ótima mesa da Flip em que trataram de cultura e política, os versos costumavam ser guardados de memória, aos montes, e ditos em casa, entre parentes e amigos, como parte do dia-a-dia. Não foi pouca a recitação no encontro com Adonis na Livraria Cultura, em São Paulo, dias atrás, quando leu seus poemas em árabe, a versão em português a cargo de Michel Sleiman e de Safa Jubran, também tradutora e outra especialista que conheço desde a época remota da EntreLivros.

Encerro o post com essas belezas, trechos de “Guia para viajar pelas florestas do sentido”, incluído na nova antologia:

 

O que é o caminho?

anúncio de partida

escrito em folhas que o pó desenhou.

 

O que é a árvore?

lagoa verde cujas ondas são o vento.

 

O que é o vento?

alma que não quer

habitar o corpo.

 

O que é a morte?

carro que leva

do útero da mulher

ao útero da terra.

 

O que é a lágrima?

guerra perdida pelo corpo.

 

O que é o desespero?

descrição da vida na língua da morte.

 

O que é o horizonte?

espaço que se move sem parar.

 

O que é a coincidência?

fruto na árvore do vento

caindo entre as mãos

sem se saber.

 

O que é o não sentido?

doença que mais se propaga.

 

O que é a memória?

casa habitada só

por coisas ausentes.

 

O que é a poesia?

navios que navegam, sem portos.

 

O que é a metáfora?

asa aliviando

no peito das palavras.

 

O que é o fracasso?

musgo boiando no lago da vida.

 

O que é a surpresa?

pássaro

que escapou da gaiola da realidade.

 

O que é a história?

cego a tocar tambor.

 

O que é a sorte?

dado

na mão do tempo.

 

O que é a linha reta?

soma de linhas tortas

invisíveis.

 

O que é o umbigo?

meio caminho

entre

dois paraísos.

 

O que é o tempo?

veste que usamos

sem poder tirar.

 

O que é a melancolia?

anoitecer

no espaço do corpo.

 

O que é o sentido?

início do não sentido

e seu fim.

 

***

 

Adonis lê seus versos, Sleiman observa. Safa Jubran se integrou ao grupo depois.

 

 

 

Flip 10: Os livros mais vendidos durante a festa literária

Por Joselia Aguiar
12/07/12 15:01

A Livraria da Vila, a que tem exclusividade para venda de livros durante a Flip, divulgou a lista dos mais vendidos. Reproduzo abaixo e depois comento.

 

SAGRADA FAMILIA – ALFAGUARA Zuenir Ventura
BONSAI – COSAC NAIFY Alejandro Zambra
BOX DRUMMOND – NOVA REUNIÃO (3 VOLUMES) – BEST BOLSO, LIVRARIA DA VILA
SERENA – COMPANHIA DAS LETRAS Ian McEwan
VISITA CRUEL DO TEMPO, A – INTRÍNSECA Jennifer Egan
AFRICANO, O – COSAC NAIFY JMG Le Clézio
GRANTA – OBJETIVA Vários
RETORNO, O – TINTA DA CHINA BRASIL Dulce Maria Cardoso
BOMBAIM – CIDADE MAXIMA – COMPANHIA DAS LETRAS Sukethu Metha
TODA RE BORDOSA – COMPANHIA DAS LETRAS Angeli

 

A primeira coisa que me desperta atenção é a presença de “O Africano”, de JMG Le Clézio, que ia comparecer mas teve de cancelar. A segunda, a ausência de Enrique Vila-Matas, que participou por fim de duas mesas, uma extra para susbtituir Le Clézio. Não tenho hipótese para Le Clézio aí; quanto à ausência de Vila-Matas, me parece que seus leitores,que o viram lá, já têm seus livros, talvez não seja um autor para ganhar fãs como resultado imediato de uma mesa.

“Bonsai”, o livro do Alejandro Zambra, é um daqueles candidatos a campeão de vendas antes mesmo da Flip, por tudo o que cerca a obra -uma história de amor e de livros, um autor jovem elogiado, a edição nesse formato gracioso.

“Serena”, de Ian McEwan, e “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan: títulos novos de autores quase imprescindíveis para quem acompanha literatura (imprescindível é exagero para Egan, era uma desconhecida até este livro levar o Pulitzer, o prêmio porém levantou muito seu nome).

Angeli e Zuenir, assim como Drummond em coletânea: autores apreciados e bastante conhecidos mesmo por gente que não acompanha literatura.

O livro da Dulce Maria Cardoso recebeu muitas e ótimas resenhas. Livro e autora carismáticos, edição também caprichada.

“Bombaim – Cidade Máxima”, de Sukethu Metha, me surpreende entre os mais vendidos –não pela qualidade da obra, já vi gente fazer muitos elogios, mas pelo fato de ele não ser tão conhecido, assim como me surpreende a coletânea da “Granta” de autores brasileiros, pois até me parecia que muita gente ia comprar, mas não gente que estivesse necessariamente na Flip –isso é um bom sinal, acho (de que o leitor comum se interessa pelos novos ficcionistas brasileiros).

Jonathan Franzen fora da lista: como às vezes a compra está diretamente relacionada ao sucesso do autor na mesa, dá para entender a sua ausência.

Como comentário geral, acho que os leitores queriam ler boas histórias, acessíveis (que não sejam para iniciados), de ficção propriamente dita (quero dizer, não é história, política, filosofia).

Os números: O primeiro da lista vendeu 407 exemplares, o segundo, 404, diferença minúscula. Os volumes de Drummond e McEwan, 394 cada. O da Egan, 341. Os demais títulos, entre 200 e 300 cada um.

No ex blog: ano passado, Valter Hugo Mãe (que agora assina com maiúsculas) foi o mais vendido, vá por aqui.

Flip 10: Os personagens inesquecíveis, Paulo Mendes Campos, nova Serrote

Por Joselia Aguiar
10/07/12 09:27

Em Paraty, entrou no ar o Segunda Voz,  série de programinhas da Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, sobre personagens que marcam escritores. Começou a ser gravada com os autores que estavam na Flip mas vai continuar. Alejandro Zambra falou de Giovanni Drogo, de “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzatti, Dulce Maria Cardoso, da  “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, Javier Cercas, de “Dom Quixote”, de Cervantes; Enrique Vila-Matas, de Nick Carraway e um figurante que aparece em “O Grande Gatsby”, de F.Scott Fitzgerald; Juan Gabriel Vásquez, de Charles Marlow, de “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. Esses são alguns que estão no ar, para escutar todos e acompanhar, vá por aqui.

Para os que amam Paulo Mendes Campos (como eu): “Carta a Otto ou Um Coração em Agosto” é o livreto com uma carta do cronista ao amigo Otto Lara Resende que teve lançamento durante a Flip, no último fim-de-semana.

O trechinho do fim da carta e o começo dos versos:  “Otto, mermãozinho, às 6 horas parnasianas de uma tarde carioca me canso de “literatura” e resolvo fazer literatura. Mas não sei. Então, escreverei um poema. E escrevo para você.”

A boa notícia é que já estão a caminho novos volumes de PMC, cujo acervo é agora guardado no Instituto Moreira Salles.

Este post breve tem uma terceira recomendação: a nova “Serrote”, de que já consegui ver/ler coisas ótimas, como as  fotografias do incrível André Kertész, o ensaio de Enrique Vila-Matas sobre Marguerite Duras  e uma carta de Samuel Beckett sobre “Esperando Godot” antes de sua estreia, na década de 1950.

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